Coronavírus: como conversar com idosos que insistem em sair de casa?

Pessoas com mais de 60 anos são consideradas grupo de risco. Mesmo assim, algumas resistem em cumprir recomendação de quarentena

Idoso com máscara no centro de Lisboa, Portugal, em tempos de quarentena

Idoso com máscara no centro de Lisboa, Portugal, em tempos de quarentena

Rafael Marchante / Reuters - 16.3.2020

A orientação dos órgãos de saúde é clara: todo mundo que puder deve ficar em casa para evitar a contaminação e frear a disseminação do novo coronavírus.

Mas por que, depois de tantos casos e mortes confirmados, ainda há pessoas que não cumprem o isolamento? E mais: por que alguns idosos, que são considerados grupo de risco, insistem em sair de casa?

Um áudio que viralizou no WhatsApp nos últimos dias — que ficou conhecido como 'Walking Velho' e fala, com bom humor, sobre a grande quantidade de idosos que ainda está nas ruas, mercados etc — retrata bem essa realidade.

"Idosos têm uma rotina e dificuldade de modificá-la. É uma característica própria da faixa etária"
Andréa Leão, psicóloga

Segundo a psicóloga Andréa Leão, especialista em neuropsicologia, um dos motivos que leva os mais velhos a descumprir a quarentena é a rotina a que estão habituados. "Os idosos seguem muito isso, tomam café, conversam, fazem uma atividade... eles têm uma rotina e dificuldade de modificá-la. É uma característica própria da faixa etária", explica.

A quebra da tal rotina é o que tem feito a comerciante Bell Xavier ter de lutar para manter a mãe e a tia, de 80 e 77 anos, respectivamente, dentro de casa. Bell, que mora com as duas no bairro do Ipiranga, em São Paulo, conta que, no início, as irmãs achavam que a pandemia era uma coisa muito distante da realidade delas, por isso, demoraram a mudar o dia a dia. "Minha mãe tem o costume de, por exemplo, ir à mesma lotérica, pagar as contas com a mesma operadora de caixa de lá... Nós tivemos de conversar com ela para que ela entendesse que precisaria deixar de fazer algumas coisas."

A comerciante afirma que a família usou a 'base do choque', segundo a própria, para convencer a mãe. "Somos em sete filhos. Se um falava e não adiantava, outro falava de novo. Até que chegou uma hora em que algum de nós ela ouviu", explica. E deu certo. Mas, com a tia, a estratégia não teve tanto sucesso. "Ela quer manter a rotina e não querer deixar de cumprir os compromissos. Agora, já está querendo viajar para Carapicuíba (município da Região Metropolitana de São Paulo) para ficar com a irmã, mas nós não deixamos".

Como conversar e convencer idosos a ficarem em casa em quarentena?

"A primeira coisa é perguntar para ele o que ele sabe sobre o que está acontecendo. Até porque, se ele tem crenças que não são compatíveis com a atualidade, você tem como contra argumentar e informar sobre o que ele não sabe. Mostrar que é um momento que demanda cuidado e que ele também faz parte disso. Que ele pode ajudar a prevenir a disseminação do vírus", orienta a psicóloga Andréa.

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Já a psicanalista Eloah Mestieri, especialista em bem-estar do idoso, destaca um possível problema cognitivo em idosos que se recusam a cumprir o isolamento e recomenda o máximo de afeto na hora da conversa. "Quem está relutando são pessoas que talvez não estejam em plena consciência. Nesses casos, a gente realmente não pode deixar sair, mas tem de conversar da forma mais amável possível, tentar distrair com outra coisa em casa", diz. "Agora, de todo jeito, nós somos os responsáveis pela saúde deles, temos de tomar frente e, se necessário, agir com uma proibição".

Foi pensando nessa responsabilidade que a família do advogado Antonio Domingues, de 73 anos, tomou a 'linha de frente', foi além da conversa e reorganizou a vida dele para que ficasse em casa.

"Nós trabalhamos todos juntos, então, criamos um grupo no WhatsApp do escritório e dissemos que, a partir daquele momento, ele não iria mais para lá. Faria home office. Levamos o computador e todas as coisas dele para casa. Ele não teve opção, a gente impôs. No começo, ele ficou 'meio assim', mas depois aceitou", conta Elaine, filha dele. "De vez em quando ele tem uma recaidinha e quer sair, mas minha mãe coloca ele na linha", diz, com bom humor.

Como amenizar a ansiedade e a vontade de sair que a quarentena pode causar?

E quando o idoso aceita ficar em casa, mas tem dificuldade em lidar com o isolamento? O segredo é se manter ativo, mesmo sem poder sair.

Idosos usando máscara em Tessalônica, na Grécia

Idosos usando máscara em Tessalônica, na Grécia

Alexandros Avramidis / Reuters - 26.2.2020

"A pessoa que tem atividades diversificadas dentro de casa vai lidar melhor com esse período de confinamento. Vai minimizar as angústias. É importante fazer uma lista de atividades que o idoso possa exercer durante esse tempo, assim como a família sentar e pensar: 'O que a gente pode fazer?'. Palavras cruzadas, jogo de mímica, pintura, leitura, pedir para que o idoso conte histórias, ligações por vídeos... um conjunto de atividades que ele possa fazer sem a necessidade de sair. Isso vai minimizar essa sensação de tristeza", orienta Andréa Leão.

"É preciso deixar um ambiente alegre em casa e fazer parecer um dia normal"
Eloah Mestieri, psicanalista

Para Eloah Mestieri, outro ponto importante é manter a casa organizada e as outras pessoas que vivem com o idoso não se 'desleixarem'. "Importante que as pessoas não fiquem só de pijama o dia todo, fiquem minimamente arrumadas para não passar aquele 'ambiente de doença'. É preciso fazer um ambiente alegre em casa e fazer parecer um dia normal", destaca.

A importância da quarentena para os idosos — até os com a saúde 'em dia'

Não são apenas idosos com problemas de saúde que se enquadram no grupo de risco do novo coronaírus. Mesmo que uma pessoa com mais de 60 anos não apresente nenhuma doença, é de extrema importância que ela acate ao isolamento, conforme orienta o médico geriatra Renato Gorga Bandeira de Mello.

"Por mais que sejam idosos saudáveis, o corpo já passou por processos de envelhecimento de seus sistemas orgânicos que reduzem a reserva dos órgãos para enfrentar doenças graves. Um jovem que não seja do grupo de risco e que apresente a doença tem uma capacidade muito maior de responder a essa agressão externa por ter mais resiliência do seu sistema funcional orgânico."

"Um idoso pode ter dificuldades de enfrentar a doença e passar por quadros graves, internação prolongada. É extremamente importante que os idosos funcionais também fiquem em casa e evitem a contaminação pela doença. Ficar em casa é um ato de compaixão com a sociedade, não só de autoproteção", completa.