'Como Wakanda, periferia não quer se esconder', diz sósia de Chadwick

Cosplayer do super-herói Pantera Negra desabafa sobre legado do ator Chadwick Boseman: "Me ajudou a não ter vergonha da cor da minha pele"

Wellington Silva é sósia do ator Chadwick Boseman e cosplayer do Pantera Negra

Wellington Silva é sósia do ator Chadwick Boseman e cosplayer do Pantera Negra

Reprodução

No dia 28 de agosto, o cosplayer profissional Wellington Silva, de 32 anos recebeu com incredulidade a notícia de que o ator Chadwick Boseman, intérprete do Pantera Negra, havia falecido em decorrência de um câncer de cólon.

Desde 2017, ano em que o ator foi divulgado na pele do super-herói, Silva havia largado o emprego como caixa de restaurante para atuar em eventos ao redor do país como a versão brasileira do príncipe T’Challa, herdeiro de Wakanda. É no país africano fictício criado pela Marvel, cujo longa levou sete indicações ao Oscar e o prêmio de melhor filme, que  formatos de futuro são gestados por e para pessoas negras.

“Ele me ajudou a me aceitar e a não ter vergonha da cor da minha pele”, explica o cosplayer brasileiro. Segundo o IIBGE, Wellington representa 56% da população  preta ou parda no país. No entanto, só no audiovisual brasileiro, homens negros são 13% do elenco.

Por não revelar a doença ao público, ator ganhou comparações com super-herói

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Reuters


“Meu celular começou a apitar com tantas mensagens. Quando recebi a notícia, caí no choro e não consegui acreditar”, desabafa Wellington. Segundo seu relato, o ator não conseguia ver as próprias fotos como Pantera Negra nos dias subsequentes à morte de Boseman, devido a semelhança com o astro. Em março de 2019, ele levou o 1º lugar no concurso de fantasias do Perifacon, o Comic Com das periferias, realizado no Capão Redondo.

“As crianças ficavam encantadas porque achavam que eu era o ator. Passavam a mão em mim para ver se eu era de verdade. Esse foi o maior prêmio.”

Segundo Wellington, que também é jurado de fantasias na Comic Com, o traje de super-herói foi costurado pela Dona Lia Rodrigues, mãe de um de seus amigos mais antigos. Para simular a absorção de energia cinética pelo roupa, a fantasia foi improvisada com fios de led. Morador do Campo Limpo, periferia de São Paulo na lista dos 20 bairros com mais mortes por covid-19, ele diz que não faltam semelhanças entre o reinado fictício e a região onde cresceu.

“É um reino onde só tem o povo preto e ninguém estranha ninguém. A periferia tem muito disso. A gente se respeita, mas quando sai mundo afora se depara com a discriminação e tem que se esconder, como o escudo de Wakanda. Na periferia, as pessoas não querem mais se esconder.”

O Legado de Chadwick Boseman

O fato de Chadwick Boseman não ter revelado a doença ao público, de acordo com Wellington, está entre as maiores comparações entre ator e super-herói.
“O Chadwick tinha essa mesma personalidade, tanto pensava nos outros que que não contou sobre a doença para ninguém. Já o T’Challa dos quadrinhos nasceu no país fictício de Wakanda como herdeiro do trono. Embora preparado para isso, só começou a se dar conta dos problemas do reino após a maturidade. Mesmo com linhagem real, T’challa e seu povo são muito humildes e se colocam no lugar dos outros.”

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