Centavo por centavo: elas ensinam economia para quem tem pouco

Conheça os projetos de três profissionais de educação financeira que ajudam o brasileiro a sair do vermelho e aprender a investir sem tirar o pé do chão 

Elas mandam na grana: da esquerda para a direita, Nath Finanças, Gabi Chaves e Fernanda Leôncio

Elas mandam na grana: da esquerda para a direita, Nath Finanças, Gabi Chaves e Fernanda Leôncio

reprodução

Não tem fórmula de sucesso, nem o primeiro milhão antes dos trinta. Quando o assunto é educação financeira, essas profissionais explicam o beabá da economia doméstica e se dedicam a ajudar o brasileiro a sair do vermelho, fazer muito com pouco e aprender a investir. Veja, a seguir, quem são as mulheres que falam sobre grana sem tirar o pé do chão. 

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Educação financeira com Racionais

Gabriela Mendes Chaves é fundadora da escola NoFront Empoderamento Financeiro

Gabriela Mendes Chaves é fundadora da escola NoFront Empoderamento Financeiro

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“As pessoas costumam perguntar como fui da economia para o rap. Mas fui do rap para a economia”. Quando a economista de 25 anos Gabriela Mendes Chaves apostou em utilizar as letras do grupo Racionais para ensinar educação financeira, sua missão era compartilhar todo seu conhecimento sobre finanças pessoais com a periferia de forma mais próxima da realidade. Foi aí que surgiu a escola de empoderamento financeiro No Front, em parceria com o planejador Rodrigo Dias.

O que o Racionais tem a ensinar sobre dinheiro e consumo?

“Projeto de agência”, responde a economista e pesquisadora na área de gênero e trabalho. “Quando Mano Brown diz em ‘Vida Loka Parte 2’ que a alegria do parceiro é ‘comprar o tênis azul, vermelho, o estoque, a modelo’, ele está falando sobre o que muitas pessoas negras e periféricas que tiveram algum tipo de privação econômica vão passar”, explica. Segundo Gabriela, a ostentação que muitas vezes termina no endividamento pode ser explicada por gatilhos emocionais relacionados a consumo. Em outras palavras, o que queremos mostrar quando gastamos mais do que podemos em roupas, comida ou calçados?

“Na experiência que temos encontrado na NoFront, o relacionamento com o dinheiro revela traumas relacionados à escassez. Quando você é perseguido pelo segurança no shopping ou sempre confundido com o funcionário, o consumo entra com uma resposta para estas situações: uma roupa mais cara, um tênis mais caro, o acesso a um restaurante.”

Nas aulas presenciais e online, Gabriela explica o que significa Selic, o que acontece quando o banco aumenta a taxa de juros e cita KL Jay para explicar sobre a importância de poupar pelo menos R$ 50,00 mensais. “Quem não organiza os centavos, não organiza os milhões. O investimento vem do que você se planeja, não do que sobra”, aponta a economista, que lançará um podcast com suas dicas no dia 20 de janeiro.

Poupando com o YouTube

Não esquecer de anotar o amendoim que comprou no trem e, se você não leva jeito com planilhas e fórmulas, separe uma folha de caderno para registrar seus gastos fixos do mês. É desta maneira descomplicada que a youtuber Nath Rodrigues tem se aproximado cada vez mais das pessoas de baixa renda que precisam de educação financeira.

“Via canais falando sobre o assunto de um jeito que não atende a todos, com fórmulas mágicas para ficar rico como se fosse algo fácil e sempre culpabilizando o pobre por tudo”, relembra a youtuber. Em seu canal “Finanças com a Nath”, ela fala sobre medos financeiros, como lidar com o cartão de crédito e explica conceitos como a diferença entre as transações bancárias DOC e TED.

Para quem quer começar 2020 colocando as contas em ordem, Nath dá a letra: “Entenda como você se relaciona com o dinheiro, suas emoções e como afeta sua vida financeira. Guarde o que puder, o importante é você estudar e controlar sua grana. Separe as despesas, se você tem conta fixa todo mês, já anota e deixa no caderninho”. 

Sustentar nove com um salário mínimo já é uma baita gestão
Fernanda Leôncio

“Sustentar nove pessoas com um salário mínimo já é uma baita gestão”. Foi pensando em quem consegue fazer muito com pouco que Fernanda Leôncio, sócia da Conta Black, fundou a startup financeira de tecnologia. Ela se dedica a democratizar o acesso a serviços bancários para 45 milhões de brasileiros que sequer possuem conta no banco. Essa lacuna no sistema financeiro, segundo Fernanda aponta, só contribui para o endividamento no país.

“O sistema é desenhado para que as pessoas não tenham acesso a ele ou, quando o acessam, chegam com alguns vícios. Isso justifica a quantidade de endividados que temos no Brasil: as pessoas não foram educadas para se relacionar bem com dinheiro. ”

Fernanda Leôncio sócia e fundadora da Conta Black

Fernanda Leôncio sócia e fundadora da Conta Black

Arquivo Pessoal

E o problema não para por aí. Para a executiva chefe de operações, é preciso mudar a maneira como pessoas de baixa renda são ensinadas a fazer seu dinheiro render. “Os mais pobres são orientados a investimentos que têm menor rentabilidade, como a poupança, uma ferramenta pouco rentável e que não projeta uma transformação social. Em contrapartida, os clientes considerados VIP pelo sistema bancário têm orientação para o lucro em menor período de tempo, com concierge financeiro e gerentes focados em produtos customizados."

Para virar o jogo, de acordo com Fernanda, é preciso coragem e estratégia. “Sem essa de ‘devo, não nego, pago quando puder’”, aponta a COO. “É importante listar todos os ganhos e todas as dívidas para se ter uma visão clara de como sair do vermelho”. Para tirar famílias do endividamento, Fernanda criou uma iniciativa de educação financeira focada em jovens de baixa renda na Faculdade Zumbi dos Palmares. O projeto conta com consultores financeiros e workshops gratuitos para todos os alunos e a comunidade no entorno da instituição.