A arara que passeia de moto e frequenta escola em cidade paulista

Duda dorme todos os dias na casa do músico Eduardo Zeferino, de 33 anos, na cidade de Pereira Barreto, no interior de São Paulo

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      BBC NEWS BRASIL

Por volta das 6h, ela sai, normalmente visita uma escola da cidade, vai para a praia, sobe nos braços dos moradores e, antes do pôr do sol, volta para casa.

A curiosa história de amizade entre os dois começou há dois anos, quando Zeferino fazia um trabalho de pintura num sítio de Pereira Barreto. Numa palmeira, um ninho estava prestes a cair, com três filhotes de arara — entre eles, Duda.

"A dona do sítio pediu para eu verificar como os filhotes estavam e dois deles estavam bem, mas a Duda estava fraca, sem pelos, ia morrer por que, na disputa pela comida, nunca conseguia comer. Foi quando eu pedi pra levar ela pra casa e cuidar", conta Zeferino.

De acordo com o músico, a ideia era cuidar da arara e deixá-la ir embora, quando ela aprendesse a voar. Mas isso nunca aconteceu.

Quando chegou na casa de Zeferino, Duda não conseguia se alimentar direito. O músico conta que chegava a colocar o alimento na própria boca para poder dar a comida.

"Ela começou a ficar grandinha, a comer normalmente e aprendeu a voar. Ela começou a passear pela cidade, mas sempre voltava. Se ela quisesse, podia ir embora, mas ela nunca foi", relata o músico, que considera a arara uma "filha".

Não demorou muito para que a população se apegasse a Duda. No "perfil" dela no Facebook, é comum ver imagens de moradores que encontram a ave durante o dia, em várias partes da cidade. "Hoje a Duda veio me visitar", compartilhou uma moradora com fotos da arara em sua casa.

Duda é cuidada pelos moradores de Pereira Barreto, em especial Eduardo

Duda é cuidada pelos moradores de Pereira Barreto, em especial Eduardo

EDUARDO ZEFERINO/DIVULGAÇÃO

Lidar com araras
O lugar da cidade que Duda mais visita é a chamada Prainha do Pôr do Sol, um espaço de lazer às margens do rio Tietê. Lá, crianças e adultos costumam encontrá-la e tiram fotos.

Para conscientizar a população sobre a sua história com Duda, Zeferino resolveu gravar um vídeo com o apoio de comerciantes locais e do fotógrafo Hiroshi Kurahara. A ideia é estimular uma relação pacífica entre a cidade e o bicho.

"Inevitavelmente, as pessoas da cidade vão cruzar com ela, então podem se assustar. Eu estou querendo mostrar que é para ninguém se assustar ou maltratar ela. Mostrar que ela vive livre e é mansa. E é uma forma de agradecer o carinho que o povo de Pereira Barreto tem com ela", conta.

Apesar da relação do animal com as pessoas na cidade paulista, humanos devem evitar maiores contatos com animais silvestres, indica a Polícia Militar Ambiental de São Paulo.

"Embora não seja recomendado, não é uma infração ofertar alimentos ou criar ninhos artificiais para animais silvestres. Mas a oferta de alimentos pode causar problemas como torná-lo mais suscetível à captura por caçadores e por traficantes de animais e pode ocorrer a transmissão de doenças", informou à BBC News Brasil o tenente Moacir Cabral Neto.

Outros problemas que podem ocorrer para os animais são a alterações no ciclo biológico, com reflexos no comportamento e na reprodução, além de problemas nutricionais ocasionados pela oferta de alimentos inadequados.

Duda voa ao lado da moto de Eduardo

Duda voa ao lado da moto de Eduardo

EDUARDO ZEFERINO/DIVULGAÇÃO

Preocupada exatamente com essa relação de Duda com as crianças, a professora de biologia e química Juliana Marques, da Escola Estadual Mitsuzada Umetani, que é visitada sempre por Duda, resolveu desenvolver um projeto com os estudantes.

Desde o início de 2019, a ave costuma ir ao colégio em períodos de aula e fica no pátio, na quadra ou até na sala de aula. "A gente quis fazer uma educação ambiental, ensinar os alunos como lidar com ela, o que ela não pode comer, ensinar os hábitos da arara para que eles a respeitem e saibam que, mesmo com boas intenções, há coisas que não devem ser feitas", conta a professora.

Na escola, Duda faz tanto sucesso que figura em um desenho no muro do prédio, pintado pelos próprios alunos.

O comportamento de Duda, de aproximação com os humanos, não é tão raro entre as araras. De acordo com informações do Centro de Reabilitação de Animais Silvestres do Projeto Pró-Arara, em Araras (SP), essas aves costumam escolher um ponto fixo para dormir, fazer alimentação e migrações diárias.

No caso de animais silvestres, é aconselhável não dar alimentos nem interagir com o bicho, já que ele, inclusive, pode machucar com seu bico. Animais que têm contatos com humanos desde filhote, entretanto, costumam ser mais "previsíveis" e mansos.

No Brasil, é possível criar araras em casa, desde que de forma legalizada. De acordo com a Polícia Ambiental de São Paulo, existem empreendimentos autorizados pelo órgão ambiental a criar e reproduzir animais silvestres, com a finalidade de comercialização dos filhotes. Também existem lojistas autorizados a venderem animais silvestres oriundos desses criadores.

Em caso de infração, como em situações de se criar uma arara de forma irregular, a pena pode chegar a um ano de detenção, mais uma multa de R$ 5 mil por animal.